quinta-feira, 11 de julho de 2013

Artigo - Raquel e Michele

Disciplina: O Conflito Como Uma Oportunidade de Diálogo

Michele Pacheco; Raquel Alves

Resumo
O presente artigo procura investigar os conflitos e as formas de imposição e construção da disciplina, regras e limites dentro da sala de aula. Teve como principais aportes teóricos os autores FLORES e ANTÚNEZ.  Procurou investigar como professores e alunos lidam com o conflito, constroem e/ou impõem as regras e limites em sala de aula, e quais as formas de resolução de conflitos adotadas por professores e alunos. Trata de reflexões acerca da observação do cotidiano de uma turma de 5º ano de uma escola estadual de Porto Alegre, onde o diálogo, reflexão e participação na eleição e construção de regras/normas aparecem como uma forma positiva de resolução de conflitos. Caracterizando-se então como uma experiência de enriquecimento mútuo, de aprendizagem, crescimento e amadurecimento, em que a partir dele possa se estabelecer  relações de dialogo, organização, participação, reflexão e compreensão de normas disciplinares. A relação com o conflito ganha novas abordagens e possibilidades, assim contribuindo para a construção de uma nova disciplina, baseada na participação e no dialogo.

Palavras-chave: Disciplina; Conflitos; Dialogo; Participação; Autonomia;

INTRODUÇÃO

O tema que norteia esse artigo é a Disciplina: conflitos, regras e limites na sala de aula. Procuramos investigar os conflitos e as formas de imposição e construção da disciplina, regras e limites em uma sala de aula, pelos professores e alunos. Nossa pesquisa concentra-se no seguinte problema: Como professores e alunos lidam com o conflito, constroem e/ou impõem as regras e limites em sala de aula? Quais as formas de resolução de conflitos adotadas por professores e alunos?  Pretendemos responder essas questões com a observação do cotidiano de uma turma do 5º ano de uma escola estadual, atentando para a relação professor-aluno, aluno-aluno, as regras impostas e construídas por ambos, os conflitos recorrentes e formas de resolução dos mesmos.
Entre os autores que já se dedicaram a essa mesma temática, adotamos os conceitos trazidos por Antúnez (2002). Tal autor destaca a maneira como a criança descobre seus limites, facilitações de canais de escape, sempre enfatizando que a base de qualquer resolução de conflitos deve ser feita de maneira acolhedora. As crianças só tendem a aprender com estes processos, em que todas elas passarão. A criança precisa entender o motivo pelo qual ela não deve agir desta maneira, sendo o adulto um facilitador deste entendimento.
Nesta fase, os alunos estão tentando resolver seus problemas de maneira civilizada, recorrendo menos ao papel da professora, para que ele resolva seus problemas ou conflitos sozinhos. Como Sabrina Bezerra Flores (2010) destaca saber verbalizar seus sentimentos é fundamental para a melhoria da qualidade das relações entre os próprios alunos, desenvolvendo a habilidade de dialogar para que assim consigam expor seus sentimentos, desejos, vontades, pensamentos.
Iremos nos valer dos conceitos de disciplina, conflitos, diálogo, participação e autonomia. Os métodos adotados envolvem elaboração de um roteiro de observação em uma turma de 5º ano, observação com registros no diário de campo e pesquisa bibliográfica.

Vivenciando o conflito, construindo disciplina

Nosso interesse por esta temática foi iniciado a partir da observação de uma turma de 5º ano de uma escola estadual de Porto Alegre. A primeira impressão que tivemos quando entramos na sala de aula e nos deparamos com as classes todas enfileiras, foi a de que ali havia um rígido disciplinamento dos corpos. No decorrer das aulas, percebemos que estávamos erradas. A organização da sala não impede que os alunos interajam uns com os outros. A turma possui regras, que foram eleitas por eles, como “não falar palavrão”, “conversar, não brigar”, a conversa é permitida, desde que em tom baixo; caminhadas pela sala, seja para solicitar a ajuda do colega, pedir algum material emprestado ou apenas para passear, “esticar as pernas”. O que a professora exige é a realização das atividades. Quando ela percebe que a movimentação dos alunos ultrapassou os limites permitidos, chama a atenção da turma, que respondem rapidamente a sua solicitação.
A professora caminha pela sala, mas não circula entre os alunos, geralmente fica na frente, sua relação/vínculo com os alunos é de respeito, são raras as demonstrações de afeto, como abraços, beijos e toques.
Presenciamos cenas muito interessantes e novas para nós. Ocorreram duas situações em que a professora precisou se ausentar da sala. Com isto o nível de conversas, risadas e a circulação dos alunos entre as classes aumentaram, junto com brincadeiras agitadas e algumas discussões. Imaginamos que isto aconteceria e ficamos observando as reações da turma. Nisto percebemos que as duas líderes da turma, sentadas a uma distância de duas fileiras uma da outra, se olharam e levantaram, dirigiram-se até a frente da turma e cruzaram os braços. Em meio ao murmúrio consegui ouvir o que elas diziam para os colegas: “o que foi que nós conversamos?”. Aos poucos, mas de certo modo rapidamente, as crianças foram retornando aos seus lugares e reduzindo o tom das conversas, ficamos perplexas!
Num outro momento, o olhar e a fala das líderes não foi suficiente, houve a necessidade de que elas anotassem no quadro, com caneta vermelha, os nomes dos colegas que não obedeciam aos seus pedidos de silêncio e ordem. Assim que eles iam percebendo que seus nomes estavam no quadro, questionavam, tentavam se defender e retornavam às suas classes, inclusive pedindo que o nome de outros colegas também fosse anotado. Nestas duas situações, quando a professora retornou à sala, lhe foi passado um relatório a respeito do que acontecera durante sua ausência. Imaginamos que a professora fosse xingar os alunos e dizer um sermão, mas para nossa surpresa, ela preferiu ressaltar que, devido aos alunos terem elegido as duas meninas como líderes da turma, então eles deviam respeito à elas, fazendo-os pensar em suas escolhas e no que é autoridade, e não autoritarismo.
           A escola tradicional normalmente busca combater o conflito, evitando-o, condenando e punindo. Enfrenta todo e qualquer conflito como falta de disciplina. No entanto a escola democrática o vê através de outro viés. A respeito Antúnez (2002, p.67) nos diz que “o conflito é um momento singular e privilegiado da dinâmica interpessoal ou institucional que deve ser aproveitado e do qual se deve tirar o máximo de todo jogo educacional que traz implícito”.
           Assim o conceito conflito passa a ser entendido não como algo de caráter somente negativo, de desordem e não educativo, mas como uma experiência de aprendizagem, crescimento e amadurecimento, onde a partir dele possa se estabelecer relações de dialogo, organização, participação, reflexão e compreensão de normas disciplinares.

No que se refere à disciplina e a participação, a escola teria de optar por uma organização que valorizasse a critica, o dialogo e a participação de todos. Os critérios dessa organização deverão ser aqueles que favoreçam a autonomia pessoal, o diálogo e a possibilidade de critica, que tornem possível uma convivência coletiva justa para todos.  (ANTÚNEZ, 2002, p.66)

Esta nova forma de visualizar o conflito dentro da escola, legitima o aluno como sujeito democrático, responsável e autônomo. Quando o aluno se vê como sujeito atuante em seu meio, podendo dar suas opiniões e confrontar seus interesses, construir e eleger as regras/normas que considera importante para a convivência, tendo no professor um condutor dessas experiências, a disciplina na escola passa a ser (re) significada.

Se realmente queremos uma escola participativa, onde o diálogo e a confiança mútua sejam um valor e um procedimento, se queremos que a convivência, a disciplina e o conflito não sejam apresentados como problemas, mas como oportunidades educacionais únicas, as estruturas que presidem a vida escolar devem ser participativas e a escola há de ser “nossa”, de todos.
(ANTÚNEZ, 2002, p. 71)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O conflito está presente diariamente dentro da escola. E a maneira de trata-lo vem ganhando novas abordagens. A forma recorrente de resolução de conflitos com castigos, agressões, gritos etc., vem nos mostrando ser cada vez mais ineficazes e ultrapassadas. Enquanto que a conversa, o dialogo, a participação e autonomia dos alunos ganha cada vez mais força nessas experiências. Quando os alunos internalizam as normas, criam, recriam e interferem nas mesmas, conversam e expõem seus pensamentos a disciplina na escola passa a fazer mais sentido, pois não é algo imposto, mas sim construído por todos.
Na turma observada, por exemplo, percebemos que a conduta da professora nos momentos de conflitos era levar os alunos a pensarem, reavaliarem suas escolhas e atitudes e as regras eleitas pelos próprios, assim como as possíveis consequências de seus atos. Os alunos por sua vez aparentavam ter uma boa receptividade a intervenção, embora acreditamos que houve uma carência de dialogo entre os alunos. As conversas posteriores às intervenções aconteciam, mas timidamente.
O diálogo é um exercício, como destaca a autora Flores (2010), só se aprende a conversar, conversando, tarefa essa que parece fácil, mas que pode se tornar difícil. Só se aprende a solucionar e se relacionar com o conflito, vivenciando o mesmo.

Quando priorizamos a comunicação através da linguagem oral são visíveis as mudanças através das ouras linguagens utilizadas também para se comunicar. Esse aprendizado é uma construção, e, com o tempo exercício da palavra, as crianças vão aprendendo a manifestarem-se e vão construindo o aprendizado de que isso é significativo para os outros ao seu redor e para si próprios.
 ( FLORES, 2010, p.10)

Nessas experiências há um engrandecimento mútuo, se trata de um desenvolvimento pleno dos indivíduos para a vida em sociedade, pois o conflito está presente no cotidiano, na vida de todo individuo dentro e fora da escola. Se for oportunizado ao aluno desde o inicio de sua escolarização uma experiência de resolução de conflito tendo como base o diálogo, a participação e a autonomia os resultados na sociedade e na escola tendem a serem enriquecedores.
REFERÊNCIAS


FLORES, Sabrina Bezerra. Trabalho de Conclusão de Curso. Roda de conversa e Resolução de Conflitos na Educação Infantil. UFRGS-RS, 2010.



ANTUNEZ, Serafín. Disciplina e convivência na instituição escolar/Serafín Antúnez...[et al]; trad. Daisy Vaz de Moraes. - Porto Alegre: ArtMed Editora, 2002.

Nenhum comentário:

Postar um comentário