Disciplina:
O Conflito Como Uma Oportunidade de Diálogo
Michele Pacheco; Raquel Alves
Resumo
O
presente artigo procura investigar os conflitos e as formas de imposição e
construção da disciplina, regras e limites dentro da sala de aula. Teve como
principais aportes teóricos os autores FLORES e ANTÚNEZ. Procurou investigar como professores e alunos lidam com o conflito, constroem e/ou impõem
as regras e limites em sala de aula, e quais as formas de resolução de
conflitos adotadas por professores e alunos. Trata de reflexões acerca da observação
do cotidiano de uma turma de 5º ano de uma escola estadual de Porto Alegre,
onde o diálogo, reflexão e participação na eleição e construção de
regras/normas aparecem como uma forma positiva de resolução de conflitos. Caracterizando-se
então como uma experiência de enriquecimento mútuo, de aprendizagem,
crescimento e amadurecimento, em que a partir dele possa se estabelecer relações de dialogo, organização,
participação, reflexão e compreensão de normas disciplinares. A relação com o
conflito ganha novas abordagens e possibilidades, assim contribuindo para a
construção de uma nova disciplina, baseada na participação e no dialogo.
Palavras-chave: Disciplina; Conflitos; Dialogo;
Participação; Autonomia;
INTRODUÇÃO
O tema que norteia esse artigo é a
Disciplina: conflitos, regras e limites na sala de aula. Procuramos investigar
os conflitos e as formas de imposição e construção da disciplina, regras e
limites em uma sala de aula, pelos professores e alunos. Nossa pesquisa
concentra-se no seguinte problema: Como professores e alunos lidam com o
conflito, constroem e/ou impõem as regras e limites em sala de aula? Quais as
formas de resolução de conflitos adotadas por professores e alunos? Pretendemos responder essas questões com a observação
do cotidiano de uma turma do 5º ano de uma escola estadual, atentando para a
relação professor-aluno, aluno-aluno, as regras impostas e construídas por
ambos, os conflitos recorrentes e formas de resolução dos mesmos.
Entre os autores que já se dedicaram a
essa mesma temática, adotamos os conceitos trazidos por Antúnez (2002).
Tal autor destaca a maneira como a criança descobre seus limites, facilitações
de canais de escape, sempre enfatizando que a base de qualquer resolução de
conflitos deve ser feita de maneira acolhedora. As crianças só tendem a
aprender com estes processos, em que todas elas passarão. A criança precisa
entender o motivo pelo qual ela não deve agir desta maneira, sendo o adulto um
facilitador deste entendimento.
Nesta fase, os
alunos estão tentando resolver seus problemas de maneira civilizada, recorrendo
menos ao papel da professora, para que ele resolva seus problemas ou conflitos
sozinhos. Como Sabrina Bezerra Flores (2010) destaca saber verbalizar seus
sentimentos é fundamental para a melhoria da qualidade das relações entre os
próprios alunos, desenvolvendo a habilidade de dialogar para que assim consigam
expor seus sentimentos, desejos, vontades, pensamentos.
Iremos nos valer
dos conceitos de disciplina, conflitos, diálogo, participação e autonomia. Os
métodos adotados envolvem elaboração de um roteiro de observação em uma turma
de 5º ano, observação com registros no diário de campo e pesquisa
bibliográfica.
Vivenciando
o conflito, construindo disciplina
Nosso interesse
por esta temática foi iniciado a partir da observação de uma turma de 5º ano de
uma escola estadual de Porto Alegre. A
primeira impressão que tivemos quando entramos na sala de aula e nos deparamos
com as classes todas enfileiras, foi a de que ali havia um rígido
disciplinamento dos corpos. No decorrer das aulas, percebemos que estávamos
erradas. A organização da sala não impede que os alunos interajam uns com os
outros. A turma possui regras, que foram eleitas por eles, como “não falar
palavrão”, “conversar, não brigar”, a conversa é permitida, desde que em tom
baixo; caminhadas pela sala, seja para solicitar a ajuda do colega, pedir algum
material emprestado ou apenas para passear, “esticar as pernas”. O que a
professora exige é a realização das atividades. Quando ela percebe que a
movimentação dos alunos ultrapassou os limites permitidos, chama a atenção da
turma, que respondem rapidamente a sua solicitação.
A professora caminha pela sala,
mas não circula entre os alunos, geralmente fica na frente, sua relação/vínculo
com os alunos é de respeito, são raras as demonstrações de afeto, como abraços,
beijos e toques.
Presenciamos cenas muito
interessantes e novas para nós. Ocorreram duas situações em que a professora
precisou se ausentar da sala. Com isto o nível de conversas, risadas e a
circulação dos alunos entre as classes aumentaram, junto com brincadeiras
agitadas e algumas discussões. Imaginamos que isto aconteceria e ficamos
observando as reações da turma. Nisto percebemos que as duas líderes da turma,
sentadas a uma distância de duas fileiras uma da outra, se olharam e
levantaram, dirigiram-se até a frente da turma e cruzaram os braços. Em meio ao
murmúrio consegui ouvir o que elas diziam para os colegas: “o que foi que nós
conversamos?”. Aos poucos, mas de certo modo rapidamente, as crianças foram
retornando aos seus lugares e reduzindo o tom das conversas, ficamos perplexas!
Num outro momento, o olhar e a
fala das líderes não foi suficiente, houve a necessidade de que elas anotassem
no quadro, com caneta vermelha, os nomes dos colegas que não obedeciam aos seus
pedidos de silêncio e ordem. Assim que eles iam percebendo que seus nomes
estavam no quadro, questionavam, tentavam se defender e retornavam às suas
classes, inclusive pedindo que o nome de outros colegas também fosse anotado.
Nestas duas situações, quando a professora retornou à sala, lhe foi passado um
relatório a respeito do que acontecera durante sua ausência. Imaginamos que a
professora fosse xingar os alunos e dizer um sermão, mas para nossa surpresa,
ela preferiu ressaltar que, devido aos alunos terem elegido as duas meninas
como líderes da turma, então eles deviam respeito à elas, fazendo-os pensar em
suas escolhas e no que é autoridade, e não autoritarismo.
A escola tradicional normalmente busca combater o conflito, evitando-o,
condenando e punindo. Enfrenta todo e qualquer conflito como falta de
disciplina. No entanto a escola democrática o vê através de outro viés. A
respeito Antúnez (2002, p.67) nos diz que “o conflito é um momento singular e
privilegiado da dinâmica interpessoal ou institucional que deve ser aproveitado
e do qual se deve tirar o máximo de todo jogo educacional que traz implícito”.
Assim o conceito conflito passa a ser entendido não como algo de caráter
somente negativo, de desordem e não educativo, mas como uma experiência de
aprendizagem, crescimento e amadurecimento, onde a partir dele possa se
estabelecer relações de dialogo, organização, participação, reflexão e
compreensão de normas disciplinares.
No que se
refere à disciplina e a participação, a escola teria de optar por uma
organização que valorizasse a critica, o dialogo e a participação de todos. Os
critérios dessa organização deverão ser aqueles que favoreçam a autonomia
pessoal, o diálogo e a possibilidade de critica, que tornem possível uma
convivência coletiva justa para todos. (ANTÚNEZ, 2002, p.66)
Esta nova forma de visualizar o
conflito dentro da escola, legitima o aluno como sujeito democrático,
responsável e autônomo. Quando o aluno se vê como sujeito atuante em seu meio,
podendo dar suas opiniões e confrontar seus interesses, construir e eleger as
regras/normas que considera importante para a convivência, tendo no professor
um condutor dessas experiências, a disciplina na escola passa a ser (re) significada.
Se realmente queremos
uma escola participativa, onde o diálogo e a confiança mútua sejam um valor e
um procedimento, se queremos que a convivência, a disciplina e o conflito não
sejam apresentados como problemas, mas como oportunidades educacionais únicas,
as estruturas que presidem a vida escolar devem ser participativas e a escola há
de ser “nossa”, de todos.
(ANTÚNEZ, 2002, p. 71)
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
O conflito está presente
diariamente dentro da escola. E a maneira de trata-lo vem ganhando novas
abordagens. A forma recorrente de resolução de conflitos com castigos,
agressões, gritos etc., vem nos mostrando ser cada vez mais ineficazes e
ultrapassadas. Enquanto que a conversa, o dialogo, a participação e autonomia dos
alunos ganha cada vez mais força nessas experiências. Quando os alunos
internalizam as normas, criam, recriam e interferem nas mesmas, conversam e
expõem seus pensamentos a disciplina na escola passa a fazer mais sentido, pois
não é algo imposto, mas sim construído por todos.
Na turma observada, por
exemplo, percebemos que a conduta da professora nos momentos de conflitos era
levar os alunos a pensarem, reavaliarem suas escolhas e atitudes e as regras
eleitas pelos próprios, assim como as possíveis consequências de seus atos. Os
alunos por sua vez aparentavam ter uma boa receptividade a intervenção, embora
acreditamos que houve uma carência de dialogo entre os alunos. As conversas
posteriores às intervenções aconteciam, mas timidamente.
O diálogo é um exercício, como
destaca a autora Flores (2010), só se aprende a conversar, conversando, tarefa
essa que parece fácil, mas que pode se tornar difícil. Só se aprende a
solucionar e se relacionar com o conflito, vivenciando o mesmo.
Quando priorizamos a
comunicação através da linguagem oral são visíveis as mudanças através das
ouras linguagens utilizadas também para se comunicar. Esse aprendizado é uma
construção, e, com o tempo exercício da palavra, as crianças vão aprendendo a
manifestarem-se e vão construindo o aprendizado de que isso é significativo
para os outros ao seu redor e para si próprios.
( FLORES, 2010, p.10)
Nessas experiências há um
engrandecimento mútuo, se trata de um desenvolvimento pleno dos indivíduos para
a vida em sociedade, pois o conflito está presente no cotidiano, na vida de
todo individuo dentro e fora da escola. Se for oportunizado ao aluno desde o
inicio de sua escolarização uma experiência de resolução de conflito tendo como
base o diálogo, a participação e a autonomia os resultados na sociedade e na
escola tendem a serem enriquecedores.
REFERÊNCIAS
FLORES,
Sabrina Bezerra. Trabalho de Conclusão de Curso. Roda de conversa e Resolução de Conflitos na Educação Infantil. UFRGS-RS,
2010.
ANTUNEZ, Serafín. Disciplina
e convivência na instituição escolar/Serafín
Antúnez...[et al]; trad. Daisy Vaz de Moraes. - Porto Alegre:
ArtMed Editora, 2002.

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