O que é ser professora? Como uma
professora deve se portar, se vestir, falar? Como é o ethos professoral, atualmente?
Por me ver como aluna que estuda para ser
professora e não como professora, nunca levantei tais questionamentos. Ter um
arcabouço teórico que legitima para a sociedade minha ação pedagógica, ao meu
ver, seria o suficiente para ser percebida como docente por todos.
Creio ser necessário contextualizar - o
leitor pode não estar entendendo nada... Sou Taís Flôres, aluna do 6º semestre
da Licenciatura em Pedagogia - e por estar em tal etapa da graduação, tive
semanas de prática pedagógica (observação e prática) ao longo do semestre. Pude
optar pela faixa etária: 6 a 10 anos (séries iniciais do ensino
"regular", com muitas aspas) ou EJA. Em função das minhas visões a
respeito do mundo e minhas ideias de como o mundo deve ser, optei pela EJA.
Como de costume, realizei minha prática
pedagógica na minha cidade de origem, São Sebastião do Caí - cidades pequenas
têm suas vantagens para inserção em instituições tão... instituidas, como o
caso da escola. Minha cidade é de colonização germânica e, mesmo que não sejam
tão fortes os resquícios dessa ascendência como o caso das cidades vizinhas
(Feliz, Bom Princípio, São José do Hortêncio... todas emancipadas de São
Sebastião do Caí), alguns traços são muito evidentes. Posso citar a importância
da escolarização no tempo "certo" (infância) e o descaso pelo aluno
que não pode estudar - em especial se for pobre ou negro.
Tal descaso pode ser percebido na Educação
de Jovens e Adultos ofertada pelo município: ocorrendo todas as etapas da EJA
em apenas uma escola e em turno único, as séries finais ficam superlotadas, e
as séries iniciais, agrupadas em uma única turma (da alfabetização até o 5º
ano) - isso sem contar com o acesso: quem pode estar naquela escola, daquele
bairro, naquele horário?
De qualquer modo, a EJA existe no Caí
(nome oficialmente utilizado para a cidade até a década de 70 e como as pessoas
a denominam popularmente). E eu, para ser coerente com meu discurso de
"viva a Educação Pública, de qualidade, para todos", quis
"enfiar o pé na lama da periferia", junto da pobreza, onde muitos não
querem estar. Para tal, me coloquei na EJA. Naquela única turma existente.
Daquela escola, considerada a "pior", tanto pela população quando
pelo que dizem as avaliações oficiais. Daquele bairro, atingido anualmente pela
enchente, com a falta de moradia adequada, com a falta de saneamento básico,
com a falta de quase tudo.
Levei como temática para minha prática a
Linguagem e seus Dialetos: Dialeto geracional, geográfico, de classe social.
Tendo como objetivo para minha prática "organizar uma prática docente e
propostas pedagógicas voltadas para uma educação emancipatória, formadora do
pensamento crítico, que rompe com paradigmas e estereótipos", não pude
ignorar Paulo Freire. Meu objetivo baseou-se nos seus pensares sobre a
alfabetização e educação de adultos. Ele atenta ao fato de que “o
desenvolvimento de uma consciência crítica que permite ao homem transformar a
realidade se faz cada vez mais urgente” (FREIRE, 2011).
Assim sendo, com um pensamento voltado
para "o diálogo dado entre oprimidos, e não utópico entre opressor e
oprimido" (FREIRE, 1980, 2011), e com embasamento teórico adequado para
justificar minhas ações, fui para sala de aula. Fui para sala de aula querendo
fazer a revolução. Fui para a sala de aula sem querer ser autoritária, querendo
escutar, dar voz aqueles que não tem, me despindo das ideias estereotipadas de
como ser uma professora (behaviorista)... Fomos para a sala de aula: eu, meu
All Star, calça jeans, camiseta,
mochila.
Antes mesmo de entrar em sala de aula, ao
chegar na escola e me sentar em um banco do pátio, escuto os questionamentos
dos alunos pelos corredores e pelos bancos: quem
é a aluna que chegou de carro? Mas que burra, não sabe que já é fim de ano, e
daí não pode começar a estudar?
Em sala de aula, proponho iniciar a aula
com um diálogo. Para que serve a fala?
Falamos sempre igual? As pessoas falam igual? Absolutamente diferente
daquilo visto na semana de observação (quadro, cópia, caderno, folhinha) e que,
deduzo eu, seja a rotina.
Propus
uma aula tão diferente, mas tão diferente daquilo que se tinha, que ficou
descolada minha ação daquilo que os alunos compreendem. Em algum lugar, ao
longo desse semestre, li que a ação pedagógica da professora deve se aproximar
daquilo que os alunos estão habituados para poder ir além - se for muito
descolado do que já se conhece, ninguém vai entender nada, e aí se acabou a
aula.
E
foi justamente o que me ocorreu: fui descolada (e aí pode ser o sentido de
"tirado daquilo que estava colado" ou da gíria, ambos os significados
me servem) demais. Saí de uma prática quadrada, infantilizadora, para algo
muito diferente - algo trangressor. Os alunos passaram de uma professora
referência para alguém que conheceram dois meses antes durante uns diazinhos;
de uma professora de salto, cabelos curtos, com cara de professora... Para alguém que não tem cara de professora.
E
é aí, na cara de professora, que eu
quero chegar.
Depois
de situações em que minha autoridade enquanto professora foi varrida para
debaixo do tapete (fogo em sala de aula, total descumprimento das regras
preestabelecidas, comentários a respeito da vida particular da minha família,
falas afirmando que eu não era a professora, escritos solicitando a professora
titular de volta...), levantei alguns questionamentos: o que legitima alguém
enquanto docente? Por que eu, que levei um trabalho pedagógico bem fundamentado,
interessante (pelo menos, eu achei), com mídias e atividades diversificadas,
não fui "levada a sério"? O que faz com que a outra professora, que
tem uma prática que adoramos rotular como"tradicional", simplesmente
replicando atividades feitas para crianças com os jovens e adultos, seja
legitimada?
Ao
sistematizar todos os ocorridos ao longo da semana, tanto em conversas
informais quanto nos relatos acadêmicos, levantei uma série de hipóteses para a
minha não legitimidade: o que aqueles sujeitos pensam e esperam da escola?,
qual a importância da escolarização para aqueles sujeitos? e para seu
contexto/seus pares?, é minha falta de prática, de manejo com outros seres
humanos?, é por que sou a estagiária, então os alunos se aproveitam de alguém
que, afinal das contas, não vai dar nota? deve ser porque não pareço
professora.
E
voltamos ao eixo deste ensaio: a cara de professora; o parecer professora; as representações sobre professoras.
Para falar de representações, me utilizo
dos pensares de Hall (apud Wortmann, 2002), pelo viés construcionista de
compreender as representações.
“A representação é uma
prática, um tipo de ‘trabalho’, que usa os objetos materiais e efeitos. Mas o
significado depende, não da qualidade material do signo, mas de sua função
simbólica. É porque um particular som, ou palavra significam, simbolizam, ou
representam um conceito, que ele funciona, na linguagem, como um signo e
carrega um significado - ou, como os construcionistas dizem, significa”
Com as representações, quero dizer que
existe um significado para o "objeto" professora - as professoras são
escritas, descritas, desenhadas, e com tudo isso, pensadas, simbolizadas.
De
forma geral, Silveira (2002) nos apresenta dois modos de representar os
professores:
“As representações de
professora e professor oscilam em nossas culturas ocidentais urbanas entre a
conveniencia de se preservar o valor e a dignidade da profissão de professora,
seu alegado caráter de sacrifício e dedicação, dentro de uma visão mais geral
de seriedade da instituição escolar, e a visão burlesca, na qual a instituição
é vista como abrigo de professoras ‘histéricas’, irritadiças com alunos
impertinentes [...].”
DallaZen (2002) apresenta um planisfério
visual sobre o ser professora:
“Sapatos de salto alto,
terno e gravata, jaleco, vestidos abotoados, cabelos presos - marcas
distintivas da seriedade e rigidez de comportamento que ainda se fazem
presentes [...]. Não poderiam faltam com a presença, também, alguns emblemas da
profissão: livros e régua na mão, óculos que, de longa data, vêm sendo fixados
como marcas da intelectualidade.”
A partir daquilo que é representado sobre
as professoras, daquilo que é significado sobre o "ser professora",
acabo, também, me constituindo enquanto docente.
Se eu levar em conta o que diz Dalla Zen
(idem), que
“as diferentes
representações de professor/a que circulam nos diversos artefatos culturais
(livros, fotografias, pinturas, cartazes, etc) produzem efeitos, constituem
modos de ser e agir, contribuindo, assim,para a construção da identidade do
profissional docente”...
Como
estou me tornando/formando professora? Que tipo de professora sou, usando All
Stars, calça jeans e camiseta?
Melucci
(2004, p.46), de cara, me avisa: "É, portanto, impossível separar, de modo
rígido, os aspectos individuais e os aspectos relacionais e sociais da
identidade."
Minha
identidade construo, então, em relação ao outro.Veja bem: construo. Melluci
(idem) fala sobre a construção da identidade, e não um recebimento”. Minha
identidade não está pronta, fixa…
Estou me constituindo enquanto docente. Se
usarei coque, camisas abotoadas, jalecos?... Não! Me constituo de forma
diferente. Para longe dos estereótipos. Sendo diferente. Assim espero.
Só não quero ser, tal e qual, Uma Professora Muito Maluquinha. Senão,
estaria replicando outra identidade, que não eu mesma.
REFERENCIAS
MELUCCI,
A. Necessidade, identidade, normalidade. In: . O jogo do eu. São Leopoldo:
Unisinos, 2004, p. 38-58.
FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. São Paulo: Paz e Terra,
2ed., 2011.
FREIRE, Paulo. Conscientização. São Paulo: Editora Moraes,
1980.
SILVEIRA, Rosa Maria Hessel. Apresentação. IN: SILVEIRA,
Rosa Maria Hessel (org.). Professoras
que as histórias nos contam. Rio de
Janeiro: DP&A, 2002.
WORTMANN, Maria Lúcia. Sujeitos estranhos, distraídos,
curiosos, inventivos, mas também éticos, confiáveis, desprendidos e abnegados:
professores de ciências e cientistas na literatura infanto-juvenil. IN:
SILVEIRA, Rosa Maria Hessel (org.). Professoras
que as histórias nos contam. Rio de
Janeiro: DP&A, 2002.
DALLA ZEN, Maria Isabel. Representações da professora de
português na literatura infanto-juvenil - elas tem o vírus da chatisse? IN:
SILVEIRA, Rosa Maria Hessel (org.). Professoras
que as histórias nos contam. Rio de
Janeiro: DP&A, 2002.

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