sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O que é ser professora?

O que é ser professora? Como uma professora deve se portar, se vestir, falar? Como é o ethos professoral, atualmente?
Por me ver como aluna que estuda para ser professora e não como professora, nunca levantei tais questionamentos. Ter um arcabouço teórico que legitima para a sociedade minha ação pedagógica, ao meu ver, seria o suficiente para ser percebida como docente por todos.
Creio ser necessário contextualizar - o leitor pode não estar entendendo nada... Sou Taís Flôres, aluna do 6º semestre da Licenciatura em Pedagogia - e por estar em tal etapa da graduação, tive semanas de prática pedagógica (observação e prática) ao longo do semestre. Pude optar pela faixa etária: 6 a 10 anos (séries iniciais do ensino "regular", com muitas aspas) ou EJA. Em função das minhas visões a respeito do mundo e minhas ideias de como o mundo deve ser, optei pela EJA.
Como de costume, realizei minha prática pedagógica na minha cidade de origem, São Sebastião do Caí - cidades pequenas têm suas vantagens para inserção em instituições tão... instituidas, como o caso da escola. Minha cidade é de colonização germânica e, mesmo que não sejam tão fortes os resquícios dessa ascendência como o caso das cidades vizinhas (Feliz, Bom Princípio, São José do Hortêncio... todas emancipadas de São Sebastião do Caí), alguns traços são muito evidentes. Posso citar a importância da escolarização no tempo "certo" (infância) e o descaso pelo aluno que não pode estudar - em especial se for pobre ou negro.
Tal descaso pode ser percebido na Educação de Jovens e Adultos ofertada pelo município: ocorrendo todas as etapas da EJA em apenas uma escola e em turno único, as séries finais ficam superlotadas, e as séries iniciais, agrupadas em uma única turma (da alfabetização até o 5º ano) - isso sem contar com o acesso: quem pode estar naquela escola, daquele bairro, naquele horário?
De qualquer modo, a EJA existe no Caí (nome oficialmente utilizado para a cidade até a década de 70 e como as pessoas a denominam popularmente). E eu, para ser coerente com meu discurso de "viva a Educação Pública, de qualidade, para todos", quis "enfiar o pé na lama da periferia", junto da pobreza, onde muitos não querem estar. Para tal, me coloquei na EJA. Naquela única turma existente. Daquela escola, considerada a "pior", tanto pela população quando pelo que dizem as avaliações oficiais. Daquele bairro, atingido anualmente pela enchente, com a falta de moradia adequada, com a falta de saneamento básico, com a falta de quase tudo.
Levei como temática para minha prática a Linguagem e seus Dialetos: Dialeto geracional, geográfico, de classe social. Tendo como objetivo para minha prática "organizar uma prática docente e propostas pedagógicas voltadas para uma educação emancipatória, formadora do pensamento crítico, que rompe com paradigmas e estereótipos", não pude ignorar Paulo Freire. Meu objetivo baseou-se nos seus pensares sobre a alfabetização e educação de adultos. Ele atenta ao fato de que “o desenvolvimento de uma consciência crítica que permite ao homem transformar a realidade se faz cada vez mais urgente” (FREIRE, 2011).
Assim sendo, com um pensamento voltado para "o diálogo dado entre oprimidos, e não utópico entre opressor e oprimido" (FREIRE, 1980, 2011), e com embasamento teórico adequado para justificar minhas ações, fui para sala de aula. Fui para sala de aula querendo fazer a revolução. Fui para a sala de aula sem querer ser autoritária, querendo escutar, dar voz aqueles que não tem, me despindo das ideias estereotipadas de como ser uma professora (behaviorista)... Fomos para a sala de aula: eu, meu All Star, calça jeans, camiseta, mochila.
Antes mesmo de entrar em sala de aula, ao chegar na escola e me sentar em um banco do pátio, escuto os questionamentos dos alunos pelos corredores e pelos bancos: quem é a aluna que chegou de carro? Mas que burra, não sabe que já é fim de ano, e daí não pode começar a estudar?
Em sala de aula, proponho iniciar a aula com um diálogo. Para que serve a fala? Falamos sempre igual? As pessoas falam igual? Absolutamente diferente daquilo visto na semana de observação (quadro, cópia, caderno, folhinha) e que, deduzo eu, seja a rotina.
 Propus uma aula tão diferente, mas tão diferente daquilo que se tinha, que ficou descolada minha ação daquilo que os alunos compreendem. Em algum lugar, ao longo desse semestre, li que a ação pedagógica da professora deve se aproximar daquilo que os alunos estão habituados para poder ir além - se for muito descolado do que já se conhece, ninguém vai entender nada, e aí se acabou a aula.
 E foi justamente o que me ocorreu: fui descolada (e aí pode ser o sentido de "tirado daquilo que estava colado" ou da gíria, ambos os significados me servem) demais. Saí de uma prática quadrada, infantilizadora, para algo muito diferente - algo trangressor. Os alunos passaram de uma professora referência para alguém que conheceram dois meses antes durante uns diazinhos; de uma professora de salto, cabelos curtos, com cara de professora... Para alguém que não tem cara de professora.
 E é aí, na cara de professora, que eu quero chegar.
 Depois de situações em que minha autoridade enquanto professora foi varrida para debaixo do tapete (fogo em sala de aula, total descumprimento das regras preestabelecidas, comentários a respeito da vida particular da minha família, falas afirmando que eu não era a professora, escritos solicitando a professora titular de volta...), levantei alguns questionamentos: o que legitima alguém enquanto docente? Por que eu, que levei um trabalho pedagógico bem fundamentado, interessante (pelo menos, eu achei), com mídias e atividades diversificadas, não fui "levada a sério"? O que faz com que a outra professora, que tem uma prática que adoramos rotular como"tradicional", simplesmente replicando atividades feitas para crianças com os jovens e adultos, seja legitimada?
 Ao sistematizar todos os ocorridos ao longo da semana, tanto em conversas informais quanto nos relatos acadêmicos, levantei uma série de hipóteses para a minha não legitimidade: o que aqueles sujeitos pensam e esperam da escola?, qual a importância da escolarização para aqueles sujeitos? e para seu contexto/seus pares?, é minha falta de prática, de manejo com outros seres humanos?, é por que sou a estagiária, então os alunos se aproveitam de alguém que, afinal das contas, não vai dar nota? deve ser porque não pareço professora.
 E voltamos ao eixo deste ensaio: a cara de professora; o parecer professora; as representações sobre professoras.
Para falar de representações, me utilizo dos pensares de Hall (apud Wortmann, 2002), pelo viés construcionista de compreender as representações.
“A representação é uma prática, um tipo de ‘trabalho’, que usa os objetos materiais e efeitos. Mas o significado depende, não da qualidade material do signo, mas de sua função simbólica. É porque um particular som, ou palavra significam, simbolizam, ou representam um conceito, que ele funciona, na linguagem, como um signo e carrega um significado - ou, como os construcionistas dizem, significa”
Com as representações, quero dizer que existe um significado para o "objeto" professora - as professoras são escritas, descritas, desenhadas, e com tudo isso, pensadas, simbolizadas.
 De forma geral, Silveira (2002) nos apresenta dois modos de representar os professores:
“As representações de professora e professor oscilam em nossas culturas ocidentais urbanas entre a conveniencia de se preservar o valor e a dignidade da profissão de professora, seu alegado caráter de sacrifício e dedicação, dentro de uma visão mais geral de seriedade da instituição escolar, e a visão burlesca, na qual a instituição é vista como abrigo de professoras ‘histéricas’, irritadiças com alunos impertinentes [...].”
DallaZen (2002) apresenta um planisfério visual sobre o ser professora:
“Sapatos de salto alto, terno e gravata, jaleco, vestidos abotoados, cabelos presos - marcas distintivas da seriedade e rigidez de comportamento que ainda se fazem presentes [...]. Não poderiam faltam com a presença, também, alguns emblemas da profissão: livros e régua na mão, óculos que, de longa data, vêm sendo fixados como marcas da intelectualidade.” 
A partir daquilo que é representado sobre as professoras, daquilo que é significado sobre o "ser professora", acabo, também, me constituindo enquanto docente. 
Se eu levar em conta o que diz Dalla Zen (idem), que
“as diferentes representações de professor/a que circulam nos diversos artefatos culturais (livros, fotografias, pinturas, cartazes, etc) produzem efeitos, constituem modos de ser e agir, contribuindo, assim,para a construção da identidade do profissional docente”...
Como estou me tornando/formando professora? Que tipo de professora sou, usando All Stars, calça jeans e camiseta?
 Melucci (2004, p.46), de cara, me avisa: "É, portanto, impossível separar, de modo rígido, os aspectos individuais e os aspectos relacionais e sociais da identidade."
 Minha identidade construo, então, em relação ao outro.Veja bem: construo. Melluci (idem) fala sobre a construção da identidade, e não um recebimento”. Minha identidade não está pronta, fixa…
Estou me constituindo enquanto docente. Se usarei coque, camisas abotoadas, jalecos?... Não! Me constituo de forma diferente. Para longe dos estereótipos. Sendo diferente. Assim espero.
Só não quero ser, tal e qual, Uma Professora Muito Maluquinha. Senão, estaria replicando outra identidade, que não eu mesma.

REFERENCIAS
 MELUCCI, A. Necessidade, identidade, normalidade. In: . O jogo do eu. São Leopoldo: Unisinos, 2004, p. 38-58.
FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. São Paulo: Paz e Terra, 2ed., 2011.
FREIRE, Paulo. Conscientização. São Paulo: Editora Moraes, 1980.
SILVEIRA, Rosa Maria Hessel. Apresentação. IN: SILVEIRA, Rosa Maria Hessel (org.). Professoras que as histórias nos contam.  Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
WORTMANN, Maria Lúcia. Sujeitos estranhos, distraídos, curiosos, inventivos, mas também éticos, confiáveis, desprendidos e abnegados: professores de ciências e cientistas na literatura infanto-juvenil. IN: SILVEIRA, Rosa Maria Hessel (org.). Professoras que as histórias nos contam.  Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
DALLA ZEN, Maria Isabel. Representações da professora de português na literatura infanto-juvenil - elas tem o vírus da chatisse? IN: SILVEIRA, Rosa Maria Hessel (org.). Professoras que as histórias nos contam.  Rio de Janeiro: DP&A, 2002.


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